10 de agosto de 2010

Antifotojornalismo: trabalhar sem manual de instruções

Artigo publicado originalmente no blog Arte Photographica

Antifotoperiodismo
© La Virreina Exposicions

No final da exposição Lírica Urbana, de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), no Museu Colecciones ICO, em Madrid, que faz parte do Festival PHotoEspaña 2010, há uma inscrição na parede que diz que o trabalho da fotógrafa americana nas ruas de Nova Iorque (onde aparecem maioritariamente crianças) pode classificar-se como “antifotojornalístico”.

A frase é de Walker Evans, uma das principais referências de Levitt, e transporta uma alusão ao método de trabalho da fotógrafa, que durante mais de uma década se concentrou num tema específico, com uma abordagem formal mais ensaística e menos… jornalística.

As fotografias de Levitt “têm um tempo de observação estendido”, disse ao público Carles Guerra, um dos comissários da exposição "Antifotojornalismo", recentemente inaugurada no espaço La Virreina, em Barcelona. Essas imagens estão menos voltadas para a urgência do momento ou mesmo para a captura do momento decisivo, duas características que percorrem os trabalhos dos 27 criadores representados na exposição que, através de exemplos históricos e diversas propostas formais, tentam reflectir sobre “novas práticas, estratégias, pontos de vista, técnicas e agentes”, que não só puseram em causa o estatuto hegemónico do fotojornalista, como “transformaram radicalmente as instituições e os conceitos basilares da profissão”.

O nome da exposição (que pode ser vista até 10 de Outubro) não deixa grande margem para equívocos: “Todos os autores são críticos do fotojornalismo, que é escravo da urgência, do imediatismo, da imagem que tem de mobilizar opinião.”

O tom geral sobre o conceito de “antifotojornalismo” foi dado por Allan Sekula depois de, em 1999, ter acompanhado as manifestações contra a globalização e a cimeira da OMC em Seattle, nos EUA. Para Sekula, nesta situação, o antifotojornalista “não leva máscara de gás, acreditação de imprensa ou teleobjectiva, não procura o momento mais violento, o clímax… Une-se à manifestação”. Donde, “a fotografia antifotojornalística une-se ao acontecimento, participa nele”.

A partir deste princípio, a exposição apresenta-se também como uma crítica aos clichês que se foram colando à prática da profissão, apelando a uma imagem “desapegada do jugo da tradição e livre para formular outras perguntas, outras reivindicações, narrar outras histórias”.

“Creio que cada vez menos se dá liberdade ao fotojornalismo. É cada vez mais escravo dos pedidos – é preciso andar atrás de uma imagem que satisfaça a opinião dos leitores. Em muitos casos, o fotojornalismo converteu-se em mera ilustração, não por culpa dos fotógrafos, mas pelo tipo de exigências dos medias”, disse Guerra, numa conversa por telefone. E rematou: “Hoje envia-se alguém a um local para trazer a imagem que, de antemão, queremos ver.”

Para além de Sekula, há, entre outros, obras de Gilles Peress, Paul Fusco, Walid Raad, Susan Meiselas e Kadir van Lohuizen.