16 de dezembro de 2010

Mídia brasileira descobre o Brasil via Espanha e Inglaterra

Alexandre Haubrich para o JornalismoB

© Sebástian Liste

O jornalismo brasileiro não permite que os brasileiros nos enxerguemos a nós mesmos. Essa é a única conclusão a que podemos chegar quando espaços urbanos de alto interesse jornalístico e humano são descobertos por estrangeiros e observados longamente enquanto nós seguimos ignorantes sobre nosso próprio país.

Nessa quarta-feira (15/12), o Projeto Quilombo Urbano, do fotógrafo espanhol Sebástian Liste, foi o vencedor do prêmio Terry O’Neill de fotografia, na Inglaterra. Sebástian Liste retratou o cotidiano de 60 famílias que vivem em uma fábrica de chocolates abandonada, em Salvador. A fábrica é conhecida como “Galpão da Araújo Barreto”, e abriga as famílias – que moravam nas ruas – há sete anos.

São sete anos de ocupação, e nenhuma cobertura da imprensa brasileira – se há alguma, não encontrei. Agora, com o prêmio, os grandes portais publicaram notas, mas sempre se referindo ao prêmio, nada de matérias sobre as pessoas que vivem na antiga fábrica. Recentemente tratamos aqui de uma reportagem da revista Caros Amigos, que, contrariando essa lógica, narrou o cotidiano de famílias que ocuparam um prédio na Avenida Ipiranga, em São Paulo.

O problema das moradias no Brasil, como eu disse naquele post, não interessa à nossa mídia dominante. A percepção desse tipo de problema tende a humanizar e a levar a uma busca por soluções. E as soluções passam necessariamente por reformas profundas, agrária e urbana, que, por sua vez, contrariam os interesses dos anunciantes. Então, cala-se.

Nesse contexto, temos algumas boas iniciativas vindas da mídia contra-hegemônica ou alternativa, que tentam trazer aos olhos da sociedade o que uma parcela significativa da população sofre por causa da especulação imobiliária e do culto ao capital. Uma reportagem publicada há alguns dias pelo Coletivo Catarse é um bom exemplo.

Mas, voltando ao Projeto Quilombo Urbano: descoberto o Brasil a cada dia por olhares estrangeiros, apenas quando o que foi visto é relatado fora daqui e, mais, o olhar apurado é premiado – também do outro lado do oceano – é que a mídia brasileira nos permite descobrir quem somos. O fato é que, brasileiros traídos por nossa fiel imprensa, somos os últimos a saber de nosso próprio país, de nosso próprio povo.